HISTÓRIAS DA VILA DE PIRATININGA

STORIES OF THE VILLAGE OF PIRATININGA: FROM FACTS TO TALES

Paulo César Cardozo de Miranda 1
Regina Adayr Arruda 2

 

Resumo: O presente trabalho apresenta as bases da pesquisa teórico-prática que resultou no espetáculo de contação de histórias intitulado: Histórias da Vila de Piratininga. Tem como fundamentos a bibliografia e documentos encontrados nos estudos de Porta (2004), Marconi (1976) e Fernandes (1975) relacionados aos fatos históricos, sociais e culturais ocorridos na Vila de Piratininga, atual Cidade de São Paulo durante seu desenvolvimento até a atualidade. A problemática está relacionada à questão de contar histórias de uma cidade antiga como São Paulo dando unidade à obra, devido à diversidade e ao número de fatos e acontecimentos significativos existentes. A discussão guiou-se pelo pensamento social urbano de Fernandes (1979). O objetivo da pesquisa centra-se na montagem de uma obra de narração oral de histórias para o público infanto-juvenil. Por necessidade dramatúrgica realizaram-se vários recortes em acontecimentos que apoiassem a estrutura da narrativa oral, modo em que está organizada a obra, dando-lhe linearidade, nem sempre encontrada no desenrolar dos fatos cotidianos, além de que focou-se em episódios que lhes pareceram mais significativos às propostas e objetivos dos autores. O texto descreve, também, a trajetória da Cia Farnel de Artes na produção do espetáculo focado nas histórias, lendas, contos e nos jogos e brincadeiras musicais com ocorrência na região da cidade com base em Andrade (1983), Cascudo (2002), Romero (2001), Lisboa (1968), Dolores (2006) e Friedmann (1998, 1996). Finaliza considerando que a obra consegue amalgamar por meio da narração de histórias, do lúdico e do poético os mais variados aspectos das expressões encontradas nos documentos, dando-lhe unidade, coerência e significação para um espetáculo infanto-juvenil apontando, portanto, significativos indícios de que a obra cumpre com suas proposições e objetivos.

Palavras-chave: Vila de Piratininga; contação de histórias; contos urbanos; lendas de São Paulo; jogos e brincadeiras urbanas.

 

Introdução

O presente trabalho apresenta as bases da pesquisa teórico-prática, que resultou no espetáculo de contação de histórias intitulado: Histórias da Vila de Piratininga. Utilizou-se como fundamentos a bibliografia e documentos existentes, relacionados aos fatos históricos, sociais e culturais ocorridos nos primórdios da Vila de Piratininga, atual Cidade de São Paulo e durante seu desenvolvimento até a atualidade. A problemática está relacionada à questão de contar histórias de uma cidade antiga como São Paulo e conseguir dar unidade à obra, devido à diversidade e ao número de fatos e acontecimentos significativos existentes. O objetivo da pesquisa centra-se na montagem de uma obra de narração oral de histórias para o público infanto-juvenil. Por necessidade dramatúrgica realizaram-se vários recortes em acontecimentos que apoiassem a estrutura da narrativa oral, modo em que está organizada a obra, dando-lhe linearidade, nem sempre encontrada no desenrolar dos fatos cotidianos, além de que focou-se em episódios que lhes pareceram mais significativos às propostas e objetivos dos autores. Para tanto buscou-se material histórico e documental em Porta (2004), Marconi (1976) e Fernandes (1975), assim como para direcionamento do estudo embasou-se no pensamento social urbano de Fernandes (1979).

Histórico

A CIA FARNEL DE ARTES desenvolve pesquisa e montagens no âmbito das Artes Cênicas, da Música e da Arte-Educação apoiando-se na distinta formação profissional dos integrantes que envolve a música erudita e popular, a educação musical, o circo, a direção e atuação teatral. Na área de Cênicas realiza espetáculos de Teatro infanto-juvenil, Teatro de Bonecos/animação e de Contação de Histórias. Suas montagens utilizam como recurso a integração de múltiplas linguagens e expressões populares e/ou tradicionais do Brasil e da América Latina. Na área de Música vem desenvolvendo trabalho de pesquisa de músicas, jogos e brincadeiras da tradição oral brasileira e latino-americana, além da composição de trilhas para seus diferentes espetáculos. Na área de Arte-Educação há produzido diversas oficinas dirigidas à formação continuada de educadores e professores de ensino infantil e fundamental, à formação de contadores de histórias e oficinas livres de criação para crianças e adultos. Seus enfoques são: a memória da cultura oral, histórica e musical; as histórias de tradição com origem popular; o patrimônio imaterial do imaginário brasileiro. A partir desta perspectiva, embasados no proposto por relevantes autores como Mário de Andrade (1983), Câmara Cascudo (2002), Silvio Romero (2001), Henriqueta Lisboa (1968), ganham caráter distinto, e unidade, os aspectos da memória cultural e artísticas existentes em diferentes regiões do Brasil, gerando renovada dinâmica em suas manifestações. As ações do grupo se realizam guiadas por um olhar lúdico e poético na reelaboração dos mais variados aspectos do fantástico e do real, do mítico e do humano, do simbólico, das crenças, possibilitando a vivência dos hábitos, mitologias, cultura e pensamentos de diferentes povos e regiões. Com a preocupação de integrar crianças e adolescentes à literatura através dos Contos
e da Criação Musical as propostas do grupo sempre estiveram direcionadas ao apoio de programas de leitura e literatura do ensino formal e não formal.

A obra: Histórias da Vila de Piratininga

A obra foi organizada a partir do levantamento e reapropriação de elementos históricos e sócio-culturais característicos da região inicialmente conhecida como Vila de Piratininga, atual Cidade de São Paulo. Foi originalmente pensada e elaborada sem o rigor da investigação científica dada sua característica de obra artística, porém, está constituída por fatos documentados e com embasamento teórico fundamental.

O presente texto estruturou-se posteriormente sendo inseridas as referências documentais das passagens e acontecimentos citados. Suas principais fontes foram a coletânea História da Cidade de São Paulo, organizada por Porta (2004), documentos apresentados por Marconi (1976) e Florestan Fernandes (1975).

Assim sendo, o espetáculo surge da pesquisa das histórias e contos que se deram em diferentes períodos no Planalto de São Paulo, desde a fundação de suas primeiras vilas, sua povoação e construção por inúmeros grupos étnicos. Passeia pelas crônicas, lendas urbanas, e seus personagens, mitos e momentos marcantes, com histórias de dimensões tão gigantescas quanto a própria cidade. Conta a lenda da cachoeira do Avanhandava (MONTEIRO, 2004, p.50) que, segundo os índios, deve tal nome a um acontecimento protagonizado pelo padre José de Anchieta. Conta também a lenda difundida como A Menina e o Quibungo recolhida por Lisboa (1968, p. 100), que faz alusão ao ente conhecido como Homem do Saco.

Percorre o caminho da Língua Geral ao Dialeto Caipira, analisado por Monteiro (2004, p. 51). Busca desvendar os nomes de ruas e regiões da cidade, herdados deste dialeto, e diariamente utilizados como: Vale do Anhangabaú, Piratininga, Pirituba, listadas por Dick (2004, p. 360-361), Paranapiacaba (LEMOS, 2004, p. 146), entre outras da topografia paulistana e que, curiosamente, são tão desconhecidas para muitos. Passa por algumas manifestações da música investigadas por Moraes (2004, p. 589-590), desenvolvidas na região e realizadas nas “Festas Reais (Festas Del Rey), […] e outros festejos” das quais desenvolveram a Festa do Divino e a Folia de Reis, de forte herança Ibérica, porém já naquela época carregadas de influências das danças e ritmos africanos como o batuque, e indígenas como o cururu e o cateretê ou catira. Recorda a chegada, instalação e a convivência de inúmeros povos imigrantes, com suas diferentes culturas, crenças e manifestações que contribuíram para a formação da identidade paulistana, de acordo a Theodoro e Ruiz (2004) e Marconi (1976).

O espetáculo, por outro lado, recupera por meio dos jogos e brincadeiras musicais infantis, encontrados nas atividades lúdicas da tradição paulistana, citadas por Friedmann (1998, 1996), e aqueles recolhidos na década de 1950 por Fernandes (1979), ambientes que envolveram e fizeram parte da infância de incontáveis gerações.

Alguns desses jogos e brinquedos são anteriores a chegada dos povos europeus, outros foram trazidos pelos portugueses e jesuítas junto com seus teatros, danças, músicas. Posteriormente somaram-se às expressões vindas da África, trazidas por diferentes etnias, fenômeno que foi estudado por Fernandes (1975).

Finalmente apresenta através da canção “Lampião de Gás”, de zica Bérgami, gravada por Inezita Barroso (1999) – que sintetiza o pensamento urbano moderno do início e meados do século XX, que tantas mudanças vislumbrou na urbe e no humano – a reminiscência de uma cidade que existiu como pequena Vila e transformou-se em imensa Metrópole.

Considerações finais

O espetáculo relaciona-se estreitamente ao imaginário popular brasileiro, mais especificamente com aquele da região de São Paulo. Utiliza diferentes linguagens como a música, a narração, os jogos e brincadeiras, tendo como argumento os contos de tradição oral ou da histórica documentada. Está orientado aos programas de leitura e literatura, como ferramenta de educação e elemento de formação de público.

Alcança, assim, amalgamar por meio da narração de histórias, os mais variados aspectos das expressões reais ou fantásticas, simbólicas, míticas e humanas encontrados nos documentos, de tal modo que tais elementos transformados em conteúdos cênicos ganham unidade, coerência e significação, através do lúdico e do poético.

Existe, portanto, significativos indícios de que a obra cumpre com suas proposições, tanto as de elaborar uma atividade de contação de histórias que atinja ao público infanto-juvenil como também, as de organizar inúmeros conteúdos históricos documentais de tal modo a ficarem orgânicos e de fácil compreensão para seu público-alvo.

 

Referências:

ANDRADE, M. Música de Feitiçaria no Brasil. Belo Horizonte: Itatiaia, 1983.

BARROZO, I. Sou mais Brasil. Música: Lampião de Gás, de zica Bérgami, faixa 14. São Paulo: CPC-UMES, 1999. 1 CD.

CASCUDO, L. da C. Contos tradicionais do Brasil. Ilustrações de Poty. 18ª ed. Rio de Janeiro: Ediouro, 2002. (Coleção Terra Brasilis).

DICK, M. V. de P. do A. “A toponímia paulistana: formação e desenvolvimento dos nomes da Cidade de São Paulo”. In: PORTA, P. (org.) História da Cidade de São Paulo v. 1: a cidade colonial 1554-1822. São Paulo: Paz e Terra, 2004, p.333-365.

FERNANDES, F. Um balanço crítico da contribuição etnográfica dos cronistas. In: ______. Investigação etnológica no Brasil e outros ensaios. Petrópolis: Vozes, 1975.

______________. Folclore e mudança social na cidade de São Paulo. 2ª ed. ver. pelo autor. Petrópolis: Vozes, 1979.

FRIEDMANN, A. Brincar: crescer e aprender – O resgate do jogo infantil. – São Paulo: Moderna, 1996.

_______________. A arte de brincar. São Paulo: Edições sociais, 1998 – (Brincare)

LEMOS, C. A. C. “Organização urbana e arquitetura em São Paulo dos tempos coloniais”. In: PORTA, P. (org.) História da Cidade de São Paulo v. 1: a cidade colonial 1554-1822. São Paulo: Paz e Terra, 2004, p. 145-177.

LISBOA, H. Literatura oral para a infância e a juventude: lendas, contos e fábulas populares do Brasil. Ilustr. Flávio Albuquerque. São Paulo: Cultrix, 1968.

MARCONI, M. Folclore do café. São Paulo: Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia; Conselho Estadual de Cultura, 1976. pagina ilustrada (Coleção Folclore, nº 4)

MONTEIRO, J. M. “Dos campos de Piratininga ao Morro da Saudade: a presença indígena na história de São Paulo”. In: PORTA, P. (org.) História da Cidade de São Paulo v. 1: a cidade colonial 1554-1822. São Paulo: Paz e Terra, 2004, p. 21-67.

MORAES, J. G. V. “Arranjos e timbres da música em São Paulo”. In: PORTA, P. (org.) História da Cidade de São Paulo v. 1: a cidade colonial 1554-1822. São Paulo: Paz e Terra, 2004, p.585-635.

PORTA, P. História da Cidade de São Paulo v. 1: a cidade colonial 1554-1822. Organização Paula Porta. São Paulo: Paz e Terra, 2004.

ROMERO, S. Contos populares do Brasil. 1ª ed. São Paulo: Landy, 2001. 368 p.

THEODORO, J. e RUIz, R. “São Paulo, de Vila a Cidade: a fundação, o poder público e a vida política”. In: PORTA, P. (org.) História da Cidade de São Paulo v. 1: a cidade colonial 1554-1822. São Paulo: Paz e Terra, 2004, p. 69-113.

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