A ARTE NAIF OLHA PARA SÃO PAULO

NAIF ART LOOKS AT SÃO PAULO CITY

Oscar D’Ambrosio 1

 

Resumo: A partir das dez mostras de arte intituladas Bienal de Arte Naif realizadas pelo SESC Piracicaba, SP, de 1992 a 2010, identificar as maneiras como a cidade de São Paulo aparece retratada por diversos artistas plásticos. Cada um revela uma linguagem e uma proposta plástica diferenciada, valorizando o gênero chamado naif.

Palavras-chave: Arte Naif, cidade de São Paulo, Bienal de Arte Naif, cultura popular

 

Summary: Having as main corpus the (Naïf ) Naif Art Biennale ten editions (1992 a 2010) promoted by SESC Piracicaba, in São Paulo State, the main object of this paper is show how São Paulo City is represented by naif artists. Each one of them reveals a particular view of the city, showing naïf art richness.

Keywords: Naif Art, São Paulo City, (Naïf ) Naif Art Biennale, folk art

 

Já chamada de “pátria de heróis e berço de guerreiros” pelo poeta Fagundes Varela; e de “comoção de minha vida” pelo escritor Mário de Andrade, a cidade de São Paulo tem sua grandiosidade arquitetônica e urbanística, principalmente a de seu chamado Centro Velho, imortalizada por artistas do passado e – também do presente.

Vamos concentrar nosso olhar em criadores e imagens consideradas como expressões da arte naif dentro dos catálogos da Bienal Naif do Sesc Piracicaba, objeto da minha pesquisa de doutorado, em andamento na Universidade Presbiteriana Mackenzie, dentro do Programa Interdisciplinar de Educação, Arte e História da Cultura. Em sua décima edição, em 2010, o evento tem a proposta de valorizar a produção de obras categorizadas como arte ingênua,
espontânea e instintiva. Nossa jornada será por artistas expostos nas Bienais do Sesc de Piracicaba que lidam com a metrópole paulistana.

Começamos com duas imagens de Agostinho Batista de Freitas (Paulínia, então distrito de Campinas, SP, 1927 – São Paulo, SP, 1997) da década de 1980. Os trabalhos, sem título, são dois óleos sobre tela (80×100 cm, 1980; e 80×120 cm, 1984) que mostram aspectos idealizados da paisagem urbana paulistana, tema recorrente na sua produção.

Freitas foi um pintor e desenhista que atuou profissionalmente como eletricista. Por volta de 1950, iniciou-se na pintura como artista autodidata. Vendia seus trabalhos na Praça do Correio, em São Paulo, SP, onde é descoberto por Pietro Maria Bardi, então diretor do Museu de Arte de São Paulo – MASP, que lhe encomenda um registro da vista panorâmica da cidade, observada do alto do edifício do então Banespa. É ainda Bardi que, em 1952, organiza sua primeira exposição individual, no MASP.

Uma outra visão se faz presente em Camilo Eduardo Tavares (São Paulo, 1932). Filho de um imigrante português de Belmonte, terra de Pedro Álvares Cabral, começou a pintar por volta dos dez anos, valendo-se de um humor bem popular em seus quadros que apresentam escolas de samba, a vida de pequenas cidades interioranas, gafieiras, candomblé e festas folclóricas, como as juninas. Com cores brilhantes e alegres, colocadas a serviço de um grande senso de observação, ironia e espírito crítico.

Em A volta dos pracinhas (óleo sobre tela, 50×60 cm, 1996), a celebração ocorrida no Vale do Anhangabaú 50 anos do final da Segunda Guerra é retratada com muito detalhe. Em Futuros atletas nas Olimpíadas (acrílica sobre tela, 40×50 cm, 2000), homenageia o SESC, instituição promotora das Bienais de Arte Naif, com diversas pequenas cenas simultâneas de jovens praticando esporte.

Euclides de Almeida Coimbra (Ribeirão Pires, SP, 1960), em Caminhada dos sem-terra (óleo sobre tela, 50×70 cm, 2000) revela uma passeata provavelmente em direção à prefeitura da cidade. Essa preocupação social é muito comum nos trabalhos do artista, que já tratou de outros temas ligados às camadas socialmente excluídas, como a fome.

Lourdes de Deus (Custódia, PE, 1959) manifesta pinturas da artista com um denso sentimento estético, enfatizado em formas bem definidas e cores vívidas. Pernambucana, mudou-se para Osasco quando tinha apenas dois anos de idade e casou em 1976 com o pintor naif Waldomiro de Deus. Convivendo com o dia-a-dia do artista, passou a tomar gosto pela arte, iniciando a sua atividade em 1992. Daí em diante, seu trabalho foi se aperfeiçoando.

Em Urubus na prefeitura (acrílica sobre tela, 50×70 cm, 2000), instaura uma sátira política, na linha de trabalhos célebres do marido de crítica social. Merece destaque, além do erro político “Prefeitura do Estado de São Paulo”, algo típico de uma linguagem popular que não passa pelos caminhos da erudição, uma característica peculiar de seu trabalho: deixar pouco espaço livre na tela.

Daniel Firmino (São José do Rio Preto, 1951) representa, com seus temas populares, geralmente com a presença de um campo de futebol, seja no centro da cena ou de maneira menos destacada, o uso de cores quentes e de temáticas sociais. Em Grito de gol (óleo sobre tela, 50×70 cm, 2002), expõe como o momento máximo do esporte pode unir pessoas nas mais diversas situações e nas mais diferentes experiências.

Myrna Maracajá (Timbaúba, PE) nasceu na zona da Mata de Pernambuco. O segundo nome, com o qual assina as suas telas, é a homenagem a um gato selvagem da região. Sua arte é habitualmente, uma explosão de cores, mas as obras expostas na Bienal do Sesc Piracicaba de 2004 são em branco e preto por integrarem uma série em homenagem à literatura de cordel.

Em O acocho na avenida Paulistana (acrílica sobre tela, 90×70 cm, 2004), Esperando o sinal abrir no trânsito de São Paulo (acrílica sobre tela, 50×40 cm, 2004) e Os plaqueiros no Centro de São Paulo (acrílica sobre tela, 70×70 cm), vemos personagens nordestinos interagindo com a Avenida Paulista e com o universo metropolitano paulistano. Ela afirma que da mão direita surge o seu traço adulto e, da esquerda, o mais infantil.

O artista Tadeu Lira (João Pessoa, PB, 1954) é um representante da geração de 1980 da pintura paraibana. Pintor desde a infância por influência do pai, o retratista Hugo Lira, iniciou sua vida profissional em 1977. Concretizou a sua primeira individual em 1985, na Galeria Transarte. Sua temática é a exaltação da cultura indígena, mas em Corrida de São Silvestre (acrílica sobre tela, 2004, 60×105 cm, 2004) salienta o grande número de participantes e a festividade que envolve a famosa prova pedestre que ocorre no dia 31 de dezembro.

Ana Carolina Pais de Souza (São Paulo, SP, 1983) declarou em depoimento para a Bienal de 2010, ao ser perguntada o que desejava contar com o seu trabalho, que tenta mostrar a sua visão sobre as cidades. Em 2006, foi selecionada com Sinagoga Beth-El e Nossa Senhora da Consolação (acrílica sobre tela, 60×80 cm, 2006), que exibe uma harmonia de convivência de religiões na metrópole, no caso entre a judaica e a católica apostólica romana. Em Tarde de chuva (acrílica sobre tela, 90×69 cm, 2010) aponta o caos urbano paulistano com as chuvas intensas, principalmente no ano em que a pintura foi feita. Surgem assim duas visões: respectivamente a de ordem e de desordem da cidade.

Na Bienal de 2006, a curadora Ana Mae Barbosa montou o Módulo [Entre Cultura] Matrizes Populares. Convidou Antonio José Saggese (São Paulo, 1950) para apresentar fotografias de grafites da periferia que integram a sua série Crônicas urbanas. A proposta era ampliar o espaço do imaginário do público, dentro de uma concepção de que a arte naif é cada vez menos ingênua dentro de uma sociedade globalizada onde referências são onipresentes
via cartazes de rua, televisão e internet.

O arquiteto Cristiano Teixeira Sidoti (São Paulo, SP, 1976) atua como artista plástico e cineasta. Mergulhou assim no mundo da cenografia e seus efeitos especiais em projetos divulgadores da cultura popular. Na tela Os coletores (óleo sobre tela, 50×70 cm, 2006) materializa o cotidiano desses trabalhadores na metrópole, que andam pela cidade catando papelão para vender em cooperativas.

Conceição Rodrigues Layoun (Ouro Preto, MG, 1961), que assina seus quadros como Preta, começou a pintar em 1988. Seus assuntos preferidos são a infância e o folclore. Foi selecionada para as Bienais de Arte Naif do Sesc de 2002 e 2008 e convidada para fazer parte do acervo do Museu Internacional de Pintura Naif no Rio de Janeiro.

O quadro Caso Isabella 1 (acrílica sobre eucatex, 60×50 cm, 2008) enfoca a violência urbana O quadro alude à morte da menina brasileira Isabella de Oliveira Nardoni, de 5 anos de idade, provavelmente atirada do sexto andar do Edifício London no distrito da Vila Guilherme, em São Paulo, na noite do dia 29 de março de 2008, fato que comoveu todo o país.

Dulcinéia Aparecida Rocha (São Paulo, SP, 1955), conhecida como Néia, é uma técnica de enfermagem que mora na zona Leste. Em Parada Gay (óleo sobre tela, 43×54 cm, 2010), assim como fizeram Maracajá e Tadeu de Lira, escolheu a avenida Paulista como mote. Vale a pena reparar no tratamento dado à fachada do MASP, concebido como uma espécie de colcha de retalhos.

Marconi Parreiras (Montes Claros, MG, 1965), que reside em Mariana, MG, e assina como Parreira, tem um passado de hospitais psiquiátricos e de morador de rua. Em depoimento à Bienal de 2010, conta que foi um colega de hospício, que se dizia pintor neoimpressionista, que o alertou para o seu talento. Marconi na rua Marconi (acrílica e verniz sobre tela, 160×120 cm, 2010) aponta justamente para o indivíduo anônimo em meio à metrópole, numa rua que
referencia Guglielmo Marconi, o inventor do rádio.

Os criadores contemporâneos aqui citados têm em comum sensibilidade, olhar arguto e técnica para conseguir observar a cidade de São Paulo sempre sob novos aspectos, já que o desafio da arte está em nunca se repetir. Cada novo trabalho pode – e deve ser – uma busca de resposta apurada para questões visuais e existenciais. Nesse sentido, a emoção e os métodos se somam. Embora o assunto seja o mesmo, no caso a capital paulista, a inovação se faz presente
pela pincelada, cor ou num gesto desbravador.

 

Bibliografia:
AQUINO, F. de. Aspectos da pintura primitiva brasileira, Rio de Janeiro, Editora Spala, 1978.

ARDIES, J. A arte naif no Brasil. Textos de Geraldo Edson de Andrade, São Paulo, Empresa das Artes, 1998.

Bienal naifs do Brasil. Catálogos de 1996 a 2010, Piracicaba, SESC, 1998. Catálogos da Bienal Naif
do SESC Piracicaba de 1996 a 2010.

BIHALJI-MERIN, O. El arte naif. Tradução de M. L. R. Grau. Madrid: s. ed., 1978.

KLINTOWITz, J. Arte ingênua brasileira, São Paulo, Banco Cidade, 1985.

MIMESSI, J. N. Pintura primitiva (naïve): resultados de uma pesquisa, Assis, Edição do Autor,
1991.

PELLEGRINI FILHO, A. “Que pintura é essa, afinal?”, D. O Leitura, São Paulo, 1989, v. 8, nº 87
(agosto): 6-7.

 

(1) Doutorando do Programa Interdisciplinar Educação, Arte e História da Cultura da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp e membro da Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA – Seção Brasil).

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