ANÁLISE DO FILME LINHA DE PASSE: A NOSSA SOCIEDADE DEMANDA UM NOVO OLHAR SOBRE A CULTURA E A MULHER

FILM ANALYSIS: “LINHA DE PASSE”: OUR SOCIETY DEMANDS A NEW LOOK AT CULTURE AND WOMEN

Rosângela D. Canassa

 

O filme Linha de Passe conta a história de uma família pobre, moradora da periferia na Cidade Líder, em São Paulo e revela as desventuras de uma faxineira e seus quatro filhos que buscam um lugar ao sol, ou melhor, um lugar nesta cidade, que exclui o sujeito de baixa renda, como se ele fosse um estranho, um intruso.

A faxineira Cleusa, com muito jogo de cintura, tenta criar os seus filhos e espera o quinto filho, de pai desconhecido. Ela tenta manter a família unida, apesar das dificuldades financeiras e afirma ser pai/mãe de seus filhos.

Cleusa está comprometida com a sua família, seus filhos e a nova gravidez. Ela espera que seja uma menina, porque considera este gênero menos complicado que o masculino e também porque poderá ajudá-la a educar seus filhos “complicados”, conforme diz.

Ela representa a sólida e confortadora referência de amor incondicional de mãe, e, ao mesmo tempo, tenta ser a figura paterna, disciplinadora.

Cleusa sente-se solitária e reinventa-se, cria forças, segue em frente. É uma mulher humilde, provavelmente sem instrução (fuma e bebe na condição de grávida), mas verdadeira nas suas intenções.

A personagem não representa a mãe sofredora, é apenas resignada. A sua tragédia acentua-se quando assume as suas paixões de mulher, de forma que o nascimento dos filhos, sem o acompanhamento do pai redobra suas responsabilidades e dificulta as suas chances de
encontrar um emprego melhor, uma vida com mais conforto para ela mesma e os filhos.

Cleusa representa não somente a mãe e sua devoção ao cenário familiar, mas também representa a força e a coragem, na medida em que enfrenta as suas dificuldades diárias, sem máscaras ou disfarces, apenas confia em si mesma. As palavras força e coragem, adjetivos tão masculinos, podem ser usados para o feminino.

O futebol é a sua alegria . No campo Cleusa reza, ri, xinga e chora. Lá, no meio da multidão, encontra a si mesma, por meio de sua paixão: o Corinthians, time de seu coração. Ela beija a medalha com uma imagem de Nossa Senhora pendurada em seu pescoço e torce com
a “Gaviões da Fiel”.

Deleita-se no raro prazer de uma partida de futebol e gosta de assistir a uma partida do seu time, ao invés de sair com as amigas para se divertir em algum lugar, o que seria esperado para a categoria feminina. Ela está atrelada ao princípio da realidade, em que o futebol não é fuga, mas um doce remédio.

No Brasil o futebol consegue por milagre abarcar toda a diversidade de culturas, em que todos convivem num mesmo espaço físico e com o mesmo objetivo: ver o seu time ganhar.

A sua narratividade aberta às diferenças tem relação, muito possivelmente, com o fato de ter se tornado o esporte mais jogado do mundo inteiro, como um modelo racional e universalmente acessível e guiado por uma ampla margem de diversidade interna, capaz de absorver e expressar culturas, comenta em seu livro José Miguel Wisnik. (WISNIK, 2008, p.14)

A personagem quando assiste ao futebol (que é para a categoria masculina) ou diz que é pai/mãe de seus filhos, ela assume a postura do masculino e do feminino, unidos numa mesma mulher, que a meu ver é o perfil do feminino na contemporaneidade.

O importante não é o masculino ou o feminino ser dominante, mas sim, a conjunção de ambos, como representa a personagem.

Desde os tempos das histéricas de Freud, a mulher sofreu grandes transformações. A aceleração do processo de emancipação da mulher, a partir dos nos anos 60, aliada às crescentes conquistas tecnocientíficas, tem feito surgir novas formas de subjetivação e formação psíquica do feminino. A partir da diferença sexual, existe na cultura uma expectativa em relação à mulher, definida pelo imaginário coletivo, do que é certo ou errado.

Mas, mesmo depois da emancipação feminina, a sociedade ainda demanda um novo olhar sobre a mulher e a cultura.

Neste filme, os personagens são contemporâneos, na medida em que lutam pela sobrevivência, dentro de um quadro de violência urbana, crise de identidade e de valores, em que a saída é a reinvenção de si mesmos. Descentrados, estes personagens tematizam as camadas sociais tradicionalmente vitimizadas por processos discriminatórios e excludentes, tais como: a faxineira, o evangélico, o motoboy e o jogador de futebol que não consegue um “passe” para uma vida melhor. Eles ocupam um lugar de destaque na narrativa do filme.

A ausência da figura paterna para os filhos de Cleusa é notável e a sua falta repercute na dinâmica familiar e na personalidade deles. Cito como exemplo, o caçula chamado Reginaldo que apresenta um complexo de inferioridade e de inadequação, dentro da própria família e também quando ele deseja conhecer o pai biológico a qualquer custo.

O filme Linha de Passe instaura-se numa espécie de realismo, quase um documentário do subúrbio paulistano, que subverte as formas tradicionais de linearidade das cenas e com isso remete à ideia de que o homem da periferia vive num mundo diverso, oblíquo, instável e funciona como uma metáfora do seu deslocamento social, em relação à classe média com sua arrogância diante dos pobres ao excluí-los, como a patroa de Cleusa.

Este fenômeno social garante a dominação (cultural, social, política e econômica) sobre o outro dito “inferior”. Tudo que é diferente dentro da cultura diversificada como a nossa, causa estranheza e resistência no outro.

A imagem urbana que surge do bairro, onde a família mora é triste e fria. A casa onde residem parece ter a sua re/construção interrompida por algum motivo que o filme não explica. Na frente da casa, existe uma perua velha estacionada, que serve como um ponto
solitário onde cada um pesa os seus tributos diários. Calados e insensibilizados, eles tentam dirigir este veículo que nunca sai do lugar, como a própria vida. Como a pia da cozinha de uma casa velha, que está sempre entupida e impede a passagem da água, a vida destes tristes personagens, simplesmente não escoa, porque não há movimento que possa impulsioná-los para alguma direção, para a liberdade, como um estado psíquico positivo e da alma.

A cidade de São Paulo apresentada em Linha de Passe é hostil, desigual e violenta. E segundo a psicanalista Laura Hansen: “Neste universo em que o reconhecimento do sujeito não é o ponto de partida do jogo, mas a batalha cotidiana, é difícil construir-se (…) As fatalidades parecem resultantes de precários laços sociais, quando a lei não promove a vida, mas a desagrega. Nesta São Paulo de frágeis contornos, cada um tenta encontrar um modo de fazer-se reconhecer e fazer-se valer, empreendendo solitárias travessias. Linha de Passe dá nome, corpo e história a milhões de anônimos que são cotidianamente ignorados”. (Revista Mente & Cérebro, 2009, p. 15)

Segundo o sociólogo zygmunt Bauman: “O anseio por identidade vem do desejo de segurança, ele próprio um sentimento ambíguo. Embora possa parecer estimulante no curto prazo, cheio de promessas e premonições vagas de uma experiência ainda não vivenciada, flutuar sem apoio num espaço pouco definido num lugar teimosamente, perturbadoramente, “nem-um-nem-outro”, torna-se a longo prazo uma condição enervante e produtora de ansiedade. (Bauman, Jorge zahar, p. 35-91)

Os desafios da vida cotidiana serão mais brandos quando nos despojarmos de preconceitos e voltamos o olhar para o nosso interior em busca de forças, como uma forma de suporte que molda e enriquece nossos pensamentos e atitudes e que nos levam a encontrar um caminho mais autêntico na vida, eliminando nosso desamparo. Acredito que só poderemos suportar a nossa condição de “desamparados” na era contemporânea, quando tivermos a força e a coragem de aceitar as dimensões do mundo que nos cerca, a coragem de estar só e a coragem de aceitar o poder transformador que existe em todo o ser humano.

 

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

1) BAUMAN, Zygmunt. Identidade: entrevista a Benedetto Vecchi. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2005.
2) Revista MENTE & CÉREBRO – 2009
3) WISNIK, José Miguel. Veneno remédio: o futebol e o Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2008

Ficha técnica:

Título: LINHA DE PASSE
Direção: Walter Salles e Daniela Thomas
Ano: 2008
Elenco: Sandra Corveloni (Cleusa), João Baldasserini (Denis), Vinícius de Oliveira (Dario), José Geraldo Rodrigues (Dinho) e Kaique de Jesus Santos (Reginaldo).
DVD – 113 minutos – Brasil

Mini-currículo:

Rosângela D. Canassa – graduada em Psicologia Clínica (São Marcos) e Mestrado em Artes Visuais (UNESP – São Paulo)

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