MEMÓRIAS E IDENTIDADE CULTURAL PAULISTA

Eliana Angélica Peres D’Alessandro 1

 

Resumo:

Haveria um sentimento no povo paulista, mais especificamente no paulistano de falta de “raízes culturais”?

Há uma cultura tipicamente paulista ou paulistana? Quais elementos mais representativos dessa cultura? Há iniciativas no sentido de fomentar, resgatar, difundir, essa cultura?

Pensando-se em uma cultura, que seja tipicamente paulista, sempre demoramos um pouco e refletimos… Existe o que podemos chamar de uma cultura paulista?

Para tanto, faz-se necessário levantar memórias, marcar, relembrar, refletir no que é “ser paulista”. Verificar o que liga o homem que mora, que nasceu ou que contribuiu de alguma maneira ao modo de ser e de viver do povo paulista, à sua arte e cultura.

Com relação à cultura de outras regiões brasileiras e até mesmo da de outros estados do Brasil, a lembrança é mais fácil, por exemplo: ao falarmos em cultura baiana, imediatamente nos lembramos do Acarajé, dos doces a base de côco, de Dorival Caymmi, da baiana, dos
terreiros de Candomblé, do pintor Carybé, dos escritores Jorge Amado e Castro Alves. Há elementos bem marcados e de fácil identificação com o povo e com a terra baiana.

Há uma hipótese já levantada sobre essa questão: a de que teria havido uma ruptura em um dado momento histórico paulista com relação ao seu passado, fazendo com que este fosse relegado a um segundo plano em favor da “modernidade”, do “progresso”, portanto, há pistas de que esse sentimento de “falta de raízes culturais”, de necessidade de um resgate de uma cultura tipicamente paulista, tenha algum fundamento, o que é um dos problemas fundamentais desta pesquisa.

Verificar como estariam essas memórias, histórias, cultura e arte na sociedade paulista da atualidade é uma tarefa a que nos propomos investigar.

Palavras-chave:

História, memória, cultura, arte, diversidade, identidade cultural.

 

Abstract:

Was there a feeling among the people from Sao Paulo, Sao Paulo, more specifically in the people that was born in the city of Sao Paulo of the lack of “cultural roots”? Is there a typically culture from Sao Paulo or native of Sao Paulo? What are the most representative elements of that culture? Are there initiatives in the judgement of the to foment, to rescue, to difuse this culture?

Thinking in a culture that is typically from Sao Paulo, we ever detain a few and we reflect… Is there what we call a culture from Sao Paulo?

Therefore, it is necessary to bring up memories, to mark, to remember, to reflect about what is being a native way of Sao Paulo. Check that links the man who lives, who was born or who contributed by the way in the manner of being and of living of the people from Sao Paulo, its art and culture.

With respect to the culture of other regions of Brazil and even from other states of Brazil, the memory is easier, for example: when we speak of culture from Bahia, just we remember of the Acaraje, of the candies coconut base, of the Dorival Caymmi, from Bahia’ woman, of the Candomble yard, of the painter Carybe, of the writers Jorge Amado and Castro Alves. There are elements well marked and easy identification with the people and the land from Bahia.

There is a hypothesis already raised about this question: that there was had a breakage in a given historical moment of Sao Paulo with respect to its past, causing it to be relegated to the sidelines in favor of “modernity” of “progress” therefore, there are tracks hints that this feeling of the “lack of cultural roots,” of the necessity for a rescue of a culture typically Paulo, had some foundation, which is a fundamental problem of this research.

Check how would were these memories, histories, art and culture from Sao Paulo society in the actuality is a task that we propose to investigate.

Keywords:

History, memory, art, culture, diversity, cultural identity.

 

Memórias e Identidade Cultural Paulista

O homem tem saberes que saem de si como objeto de estudo e que voltam para a sociedade como objeto de conhecimento, é o caso da cultura de um povo, ou de um lugar. A cultura está em constante modificação, criando e recriando identidades, o que torna fascinante
compreender a diversidade de modos de viver e de ver o mundo ao redor.

Para tentar desvendar e melhor compreender este complexo objeto de estudo, necessitamos pesquisar, dar nexo e agrupar as partes que o compõe, com o auxílio das Ciências Humanas, de seus métodos e do conhecimento amealhado até então. A construção do patrimônio material e imaterial humano depende de iniciativas que pretendam dar voz e vez, tornando a discussão acadêmica sobre essa temática, instrumento de preservação e de reconhecimento dos vários modos de ser nas mais variadas culturas.

Entrar nos meandros do que podemos chamar de uma cultura tipicamente paulista, significa descobrir seus elementos marcantes, que se traduz em seu patrimônio cultural material e imaterial.

O processo de preservação dos elementos culturais gera um sentimento de identidade e continuidade. Encontrar elementos simbólicos, que possam ressignificar o modo de ver essa cultura, são os objetivos que justificam o caminho dessa procura, que poderá trazer descobertas significativas ao povo paulistano e também ao conjunto patrimonial brasileiro.

De acordo com o IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), órgão brasileiro que resguarda o patrimônio nacional, juntamente ao Ministério da Cultura, o Patrimônio Cultural pode ser dividido em dois grupos: imaterial e material. O imaterial é aquele
em que as práticas, representações, expressões, conhecimentos e técnicas, instrumentos, objetos, artefatos e lugares são reconhecidos por comunidades como parte integrante de seu patrimônio cultural. Ele é transmitido de geração em geração, é constantemente recriado pelas comunidades em função de seu ambiente, interação com a natureza e de sua história.

Pela constituição Federal de 1988, constituem-se em bens materiais e imateriais: “Os bens de natureza material e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira, nos quais se incluem: as formas de expressão; os modos de criar, fazer e viver; as criações científicas, artísticas e tecnológicas; as obras, objetos, documentos, edificações e demais espaços destinados às manifestações artístico-culturais; os conjuntos urbanos e sítios de valor histórico, paisagístico, artístico, arqueológico, paleontológico, ecológico e científico; urbanos, sítios arqueológicos e paisagísticos e bens individuais e móveis: coleções arqueológicas, acervos museológicos, documentais, bibliográficos, arquivísticos, videográficos, fotográficos e cinematográficos”.

Há uma hipótese já levantada sobre a questão que se remete a sensação de “falta de raízes” que pode estar presente no povo paulistano, a de que teria havido uma ruptura em um dado momento histórico paulista com relação ao seu passado, fazendo com que este fosse relegado a um segundo plano em favor da “modernidade”, do “progresso”, portanto, há pistas de que esse sentimento de “falta de raízes culturais”, de necessidade de um resgate de uma cultura tipicamente paulista, tenha algum fundamento, o que é um dos problemas fundamentais desta pesquisa.

Segundo Maria Arminda do N. Arruda em Metrópole e cultura: o novo modernismo paulista em meados do século: (…) “Encontra-se em processo de cristalização um problema cultural de ordem diversa, no qual o peso normativo do passado é afastado e o presente erige-se na principal referência, momento da vivência das possibilidades infinitas da vida moderna, cuja experiência tenderia a se alargar no futuro. A expressão última subjacente àquele sentimento difundido em meados dos anos 50 na cidade de São Paulo diz respeito a um reconhecimento, ou talvez a uma vontade, de que se vivia a suspensão de uma história, um verdadeiro corte em relação ao passado. A aposta nesse momento ultrapassava o universo do cidadão comum e abrangia as análises realizadas sobre a revolução que se operava na cidade”: “a urbanização representa e assegura a evolução para situações sociais de vida historicamente desejáveis no Brasil” (Meyer, 1991, p. 206).

As perguntas levantadas inicialmente, que seriam o mote desta pesquisa, são: Haveria um sentimento no povo paulista, mais especificamente no paulistano de falta de “raízes culturais”?

Há uma cultura tipicamente paulista ou paulistana? Quais elementos mais representativos dessa cultura? Há iniciativas no sentido de fomentar, resgatar, difundir, essa cultura?

Para Brandão e Alfredo Bosi: (…) “Cultura pode ser definida como o mundo criado pelo homem por meio do trabalho que este realiza sobre a natureza, da qual também faz parte. Portanto, cultura é por eles entendida como trabalho. É o trabalho pelo qual o mundo dado ao homem se transforma no mundo construído pelo homem. Ou seja, com o trabalho entendido como atividade humana, o ser humano transforma a natureza e a ressignifica, e esta se torna, assim, uma segunda natureza, na qual ele constrói a sua humanidade e se distingue dos outros seres da natureza de que faz parte. Por meio da cultura, o homem se afirma como senhor do trabalho que transforma o mundo, sendo este o fundamento da cultura, pois, mais que o fato de ela ser produzida de um modo material e concreto, o que importa é que a cultura constitui a construção social da consciência humana. O que significa dizer que o homem faz parte da natureza, mas a transcende, ao transformá-la e ao se transformar com essa ação”.

Ao “esquecer” o passado, deixando-o em segundo plano em favor do progresso, não teria o paulistano perdido algo de sua “humanidade”?

Seria favorável um movimento de ressignificação da cultura paulista? Todos os moradores da cidade participariam de modo igualitário dessa cultura?

A busca pelo progresso, pelo novo, pela urbanização em especial no período do pós Segunda Guerra Mundial, que cita Arruda em seus estudos sobre a metrópole paulista, teria de algum modo atuado no inconsciente coletivo de modo que as memórias, a história e a própria cultura em si pudessem ter sofrido algum prejuízo?

Para Carlos R. Brandão (BRANDÃO, 1986), “Só se pode conceber a noção de cultura associada, simultaneamente, às idéias de trabalho, história e dialética — entendendo-se, no âmbito da primeira, a ação social e consciente do homem sobre a natureza (que inclui o próprio
homem e os outros com os quais se relaciona), que resulta em uma prática social e socializada, capaz de recriar o que foi criado, ressignificando, assim, a natureza significada pelo homem por meio do trabalho social”. As noções de cultura associada, simultaneamente, às idéias de história – como espaço e tempo de realização do trabalho humano e de seu produto e de dialética, entendida como a determinação das relações do homem com a natureza e dos homens entre si, estabelecem um movimento pelo qual o ser humano cria a cultura enquanto faz a história. O paulista vê a cultura enquanto mercadoria ou tem uma visão de cultura como algo que sofreu uma modificação pelo trabalho e que faz parte de sua história? Quais exemplos o paulistano daria do que seriam elementos marcantes em sua cultura?

Bosi, alerta para a contradição da sociedade capitalista, na qual a cultura que, conceitualmente, é entendida como fruto de um trabalho humano coletivo pode ser vivida como uma divisão entre os que têm e os que não têm cultura. O que significa dizer que a cultura deixa de ser um conceito democrático para tornar-se classista, dividindo a sociedade entre os que possuem e os que não possuem cultura, isto é, bens culturais. Bosi adverte, então, que a única possibilidade de reverter tal problemática reside em restabelecer a noção de cultura associada à idéia de trabalho, uma vez que somente assim todos os indivíduos terão acesso à cultura, pois todos serão cultos caso trabalhem, realizem obras enquanto processo e resultados produzam conhecimentos que possam ser compartilhados e, com isso, gerem uma ação social capaz de transformar a vida em sociedade.

Estas Memórias e a Identidade Cultural Paulista, estariam para o paulistano, ligadas mais aos bens culturais? Assim sendo muitos não estariam fazendo “parte dessa cultura”? O que contarão os paulistas a seus filhos e netos? O que será da tradição oral? O que ainda faz parte dela?

Ecléa Bosi, em seus estudos relativos à memória, em Memória e Sociedade: Lembranças de Velhos mostra que a função social exercida durante a vida ocupa grande parte da memória dos idosos, pois a memória nessa fase da vida é uma construção de pessoas que já trabalharam, mas com uma nova função social, a de lembrar e contar para os mais jovens a sua história, de onde eles vieram, o que fizeram e aprenderam. Na velhice, as pessoas tornam-se a memória da família, do grupo, da sociedade. O homem jovem e ativo, em geral, não se ocupa com lembranças, não tem tempo para isso. Dos jovens, a sociedade espera produção, e muitas vezes não se dá conta da violência implícita nesse processo. Produção nas indústrias, nas minas de carvão, produção de conhecimento muita produção. Dos velhos, não. Deles, espera-se a lembrança. Mas quando não se valoriza essa função social, como acontece mais correntemente, há um esvaziamento e uma desvalorização dessa nova etapa da vida.

Não bastasse a crescente desvalorização social da função dos idosos, de contar suas memórias, sua história de vida, a história da cultura de seu povo, ainda seria pior, se essas memórias culturais estivessem sendo deixadas de lado? Tudo em prol do progresso, da modernidade?

É provável que este estudo produza mais questionamentos do que respostas, ainda assim ele é necessário para que as futuras gerações saibam que num dado momento histórico essa tentativa de ressignificação foi pensada.

Os objetivos gerais desta pesquisa são verificar se há e em que medida, um sentimento no povo paulista, mais especificamente no paulistano de falta de “raízes culturais”. Levantar dados sobre se há uma cultura tipicamente paulista ou paulistana e sobre quais seriam os elementos mais representativos dessa cultura?

Catalogar se por ventura houver iniciativas no sentido de fomentar, resgatar, difundir, essa cultura.

A Metodologia empregada no processo de desenvolvimento desta pesquisa será: Pesquisa direta, entrevistas, pesquisa bibliográfica, estudos de caso de eventos, pesquisa-ação, criação de eventos e de cursos.

Esta pesquisa se encontra em fase inicial, ou seja, nesta fase preliminar, está sendo feito o levantamento bibliográfico de autores que escrevem sobre memória e cultura, sobretudo cultura paulista, de material impresso e digital e sobre iniciativas relevantes com relação à memória, cultura e arte paulista.

Uma segunda etapa, após o levantamento bibliográfico, será a de verificar se há iniciativas no sentido de difundir a cultura paulista, de seus elementos mais marcantes. Caso positivo, seu conteúdo será analisado e catalogado, servindo de fonte para outros pesquisadores interessados.

Numa terceira e última etapa deste estudo, aproveitando os resultados obtidos a partir do material gerado, pretendemos verificar o interesse na implantação de cursos de extensão universitária, para professores da rede pública de ensino sobre de cultura e arte com características próprias da cultura paulista a ser oferecido nos meios de interesse para formação e difusão desses resultados.

 

Bibliografia Básica:

ARANTES, Antonio A. (2001). Patrimônio Imaterial e referências culturais. In: Patrimônio Imaterial. Rio de Janeiro: ORDECC, pp.129-140 (REVISTA TEMPO BRASILEIRO Nº 147).

ARRUDA, Maria Arminda do Nascimento. Metrópole e cultura: o novo modernismo paulista em meados do século. Tempo Social; Rev. Sociol. USP, S. Paulo, 9(2): 39-52, outubro de 1997.

BOSI, Alfredo. Cultura como tradição. In: BORNHEIM, G. et al. Cultura brasileira: tradição/contradição. Rio de Janeiro: Jorge zahar, 1987

BOSI, Ecléa. Memória e sociedade: lembranças de velhos. São Paulo, SP. T.A. Editor, 1979. BRANDÃO, C. R. A educação como cultura. São Paulo: Brasiliense, 1986. 2. ed.

MATTA, R. da Relativizando: uma introdução à antropologia social. Rio de Janeiro: Rocco, 1987.

LÉVI-STRAUSS, Claude (2001). Patrimônio Imaterial e diversidade cultural: O novo decreto para a proteção dos bens imateriais. In: Patrimônio Imaterial. Rio de Janeiro: ORDECC, pp. 23-28 (REVISTA TEMPO BRASILEIRO Nº 147 – 2001).

PEDROSA, M. “A Bienal de cá para lá”, in. Política das artes. Arantes, O.(org) SP: EDUSP, 1995.

SCHAPIRO, M. A arte moderna, séculos XIX e XX. SP: EDUSP, 1996.

TELES G. M. Vanguarda européia e modernismo brasileiro. 9 ed. Petropolis: Vozes, 1986 Williams, Raymond. Cultura. RJ: Paz e Terra, 1992.

ZANINI, W. História geral da arte no Brasil. SP: Instituto Walter Moreira Salles, 1983.

__________A arte no Brasil nas décadas de 1930-1940. SP: Studio Nobel, 1991.

Sites:
http://www.brasil.gov.br/sobre/cultura/patrimonio/patrimonio-material-e-imaterial

http://www.rumoatolerancia.fflch.usp.br/node/2250

http://www.comciencia.br/resenhas/memoria/velhos.htm

 

Notas:

1 Eliana Angélica Peres D’Alessandro possui Graduação em Ciências Sociais (1990), Especialização em Arte e Cultura do Séc. XX pela UNESP (2002) e Mestrado em Artes Visuais – UNESP (2006). Atualmente é funcionária da Secretaria de Estado da Educação de São Paulo. Foi Chefe da divisão de Cultura da Prefeitura Municipal de São Bernardo do Campo. Tem experiência na área de Sociologia, com ênfase em cultura, atuando principalmente nos seguintes temas: arte, influência da imagem, teatro, educação e arte, história, consciência social. Trabalha na elaboração, implantação e manutenção de projetos de cunho artístico, de inclusão, fomento e difusão cultural. Atualmente atua como pesquisadora junto ao laboratório de pesquisa em identidade e diversidade cultural da UNESP.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: