ORALIDADE E CULTURA

Maria Helena Sassi Freitas
Mestranda em Artes pelo Instituto de Artes da Unesp
Prof. Orientador Dr. José Leonardo do Nascimento

 

Antes de situarmos a história oral como fonte de transmissão de conhecimento e cultura como prática de salvaguardar a identidade cultural de determinados povos ou localidades, é importante que façamos algumas observações acerca da própria experiência cultural humana.

No princípio, a comunicação entre os homens dava-se por gestos, expressões e grunhidos e assim, os humanos aprenderam a “ler” todo gestual e sons emitidos por seus semelhantes. Depois, com a fala, a comunicação se tornou mais ampla e objetiva. Desse modo, as experiências adquiridas através da caça e de outras atividades foram se acumulando e sendo transmitidas para as gerações seguintes como forma de subsistência e do domínio ou controle sobre determinadas situações ou fatos.

Na medida em que o homem foi se firmando em pequenas sociedades ou clãs, de grupos sedentários ou nômades, ele foi adquirindo conhecimentos relativos ao espaço geográfico que ocupa: a compreensão do clima, do solo, o fenômeno cíclico da natureza e outros fatores importantes para sua sobrevivência. Além disso, foi se apercebendo, também, da sua posição em relação ao grupo a que pertence, assim como em relação aos outros grupos.

Todas essas informações vitais foram transmitidas e acumuladas de geração para geração, daí podermos afirmar que a base da construção de nossa história humana foi essencialmente realizada pela oralidade, tendo em vista que o registro impresso tal como conhecemos hoje, é relativamente recente. A escrita foi concebida para resolver problemas do cotidiano como a necessidade de registrar produtos comercializados, o levantamento da estrutura de obras, assim como a necessidade de sinais numéricos para realização de cálculos.

Assim, pensar em transmissão da cultura oral, tal como se discute atualmente, requer que analisemos a partir de que momento histórico pretendemos “resgatar” os fatos e quais fontes ou registros podem ser consultados. Historiadores e antropólogos, sob diversas condições, constroem informações variadas sobre a cultura e a história de determinada época ou um local específico, adquirindo uma visão sobre objetos, comportamentos, linguagem, crenças, vestimentas, arquitetura etc.

Por outro lado, consideramos também a importância da memória nesta busca de informações sobre a cultura e a tradição, os ensinamentos por que passam aqueles que procuram manter seus elos culturais, através de rituais, danças, músicas, orações, conversas. Porque é a memória que vai buscar num determinado tempo histórico esses ensinamentos e trazê-los para o tempo atual, realizando, portanto, uma experiência de transferência de tempo e muitas vezes de espaço.

Com uma variação enorme de possibilidades entre cantos, encenações, textos populares, mitos, lendas, contos, representações nos folguedos, a literatura oral é a arte mais antiga empregada para exprimir histórias reais ou fictícias através de palavras e gestos, como um modo de infundir valores morais e conhecimento, preservar a cultura e entreter as pessoas. Histórias que se modificam com o passar do tempo, mantendo-se uma estrutura básica, porém algumas partes vão se alterando; uma história relatada hoje, não será contada com as mesmas palavras amanhã; e, com o passar dos anos, a mesma história vai incorporando novos itens e abandonando outros. Isto tem a ver com o que está acontecendo política e economicamente num determinado local. Incorporam-se elementos da atualidade para que as histórias se aproximem mais de seus objetivos citados acima.

Para tanto o imaginário entra em ação e através de recursos mágicos, novos elementos de representação simbólica são agregados, permitindo que a história tenha sua continuidade, permanecendo no tempo e no cotidiano das pessoas.

É importante lembrar que este imaginário está repleto de criaturas sobrenaturais como dragões, serpentes aladas, animais ferozes e criaturas híbridas que carregam consigo um encantamento, uma transmutação física e que nestes elementos estão presentes uma representação simbólica que ajuda a construir uma visão de mundo, explicando-o e interpretando a sua realidade, de modo de afirmar que existe outras coisas além de nossa própria experiência.

A cultura oral, portanto, toma formas de representatividade de uma determinada região ou grupo social, apresentando aspectos que lhe são peculiares e que estão embutidos nas várias histórias como contos, crenças e mitos, na forma pela qual são transmitidos de geração para geração. Isso explica, por exemplo, porque uma determinada lenda ou música ou qualquer outro item que faz parte da literatura oral apresenta-se com características diferentes em regiões diferentes: a estrutura da história é a mesma, porém, apresenta-se com outros elementos. Devemos ressaltar que isto não altera a lenda ou o conto em termos de qualidade, apenas se adequa a uma outra realidade, fazendo parte do inconsciente coletivo.

Por falar em outra realidade, vale lembrar, também, as representações das tradições orais que acontecem fora do âmbito de sua própria comunidade. Estamos falando dos festivais de cultura popular que hoje estão em voga e fazem parte do programa de incentivo de todos os governos tanto na esfera municipal quanto na estadual e na federal. Como exemplo, podemos citar apenas algumas cidades do interior do Estado de São Paulo que promovem a apresentação de seus grupos ou companhias em determinadas épocas do ano, de acordo com o calendário de comemorações da cidade; assim temos cidades no entorno da capital como Carapicuíba, São Bernardo do Campo, Embu, e, no interior, Cruzeiro, Tatuí, Piracicaba, São José dos Campos, Franca, Cravinhos, Santo Antonio da Alegria e Olímpia considerada a Capital Nacional do Folclore. No Estado de São Paulo, temos o Revelando São Paulo que neste ano teve a sua décima quarta edição. No âmbito federal, diversas ações como editais e outros incentivos ocorrem para tornar essa revalorização possível.

Porém, o que queremos dizer com tudo isso é que ao mesmo tempo em que se tem a preocupação com a preservação das nossas tradições, ocorre uma descaracterização da mesma. Tomemos como exemplo uma apresentação de Folia de Reis. Existe todo um trabalho, que se inicia com os integrantes da companhia, desde o mês de novembro, quando saem em peregrinação pedindo doações e que se finda no dia seis de janeiro com uma grande apresentação, ou seja, existe um ritual completo. Ao participar de um festival, a apresentação nada mais é do que um recorte da cultura oral desse grupo, é uma mostra, pontual e pequena.

Creio que, na verdade, o que importa para nós pesquisadores é o trabalho da população que continua a manutenção ou reelaboração da tradição, que promove os eventos que estão presentes no calendário religioso-cristão, as chamadas festas cíclicas e que são realizadas na própria comunidade, durante o ano todo, cada uma em seu período, aí sim com a representação da própria cultura viva, que se transforma com a dinamicidade da vida.

Entretanto, Montenegro nos lembra da importância do registro, seja fotográfico ou através de filmes, nos quais podemos associar os acontecimentos e fatos. Além disso, sustenta que a história popular é feita de histórias que se cruzam “determinam-se e que, na multiplicidade de intersecções, expressam uma compreensão de responsabilidade, limites e desafios do outro mundo, que também é o mesmo.” Reforça assim a dificuldade na manutenção da cultura oral dentro dos limites de um mundo cercado de novas mídias e comunicação de massa. Há, assim, uma contradição, “um paradoxo que a modernidade ao mesmo tempo em que nos une, nos coloca num turbilhão permanente de mudança, de contradição, de luta, de desintegração”, que Berman muito bem colocou. Ao mesmo tempo em que sentimos necessidade de preservar nossa cultura, nos deparamos com este “turbilhão” de informações, de influências, que não sabemos ainda muito bem para quais caminhos estas mudanças nos levarão.

Por isso, é importante levar em consideração, quando do registro de informações da oralidade, os três focos produtores de história e que fazem parte do registro da memória da população: a história construída, que é fundada na experiência do indivíduo; a história produzida pelas elites e a história da esquerda.

O confronto e a análise de registros, da fala de colaboradores, mais uma avaliação sócio-econônica e política podem nos fornecer dados valiosos.

No entanto, não se pode deixar de levar em consideração os principais aspectos da cultura oral, os quais passamos a citar: tem como base a observação e entendimento de rituais, mitos e crenças, memória coletiva, a oralidade entre gerações, um núcleo estrutural permanente e outro flexível, mutável. Também encontramos três gêneros diferentes de história oral: a história oral de vida; a história oral temática e a tradição oral. Esta última mais difícil e menos praticada seja “pela complexidade de captação, pela falta de modelos, por desconhecimento de seu recurso como alternativa capaz de revelar aspectos sociais,” segundo Meihy.

Não podemos deixar de citar, com preocupação, os tipos de vertentes de pesquisa que se ocupam com a cultura popular. Em princípio, podemos citar duas, segundo Mascarenhas, sendo uma a que se refere àquela mais tradicional em que se faz a coleta de dados e uma outra que procura apontar erros dos folcloristas, comprovar a existência de uma produção popular diversificada e contemporânea que se mescla e refuncionaliza por meio do contato com outras produções. Porém, a autora prefere repensar a constituição do saber popular através de regras que regem a produção do saber, e, portanto, aproximam-se mais da realidade a ser pesquisada.

Lembremos também que a literatura oral tradicional dependendo da experiência pessoal e da imaginação daqueles que a recebe, tende a ter um impacto mais forte, o que a torna fonte inesgotável e incansável de transmissão daquilo que não é necessário ter registro
escrito, pois se encontra enraizado no seio da população, de determinados grupos ou tribos, desde a cidade até as mais recônditas regiões deste nosso país.

 

Bibliografia:

BERMAN, Marshall. Tudo que é sólido desmancha no ar, Companhia das Letras, São Paulo, 1987, p.15

BRENMAN, Ilan. Cultura oral, história oral. Entrevista para o Boletim da Democratização Cultural – B.D.C. – http://www.blogacesso.com.br/?p=122 – 14/10/2010 – 23:20h

LARAIA, Roque de Barros. Cultura: um conceito antropológico. Jorge zahar Editor, Rio de Janeiro, 13ª ed. 2000

MASCARENHAS, Vanusa. Literatura Oral e Cultura Popular: passando em revista velhos temas, artigo, http://www.comissaobaianadefolclore.org.br/wp-content/uploads/artigos/artigo5.pdf – 14/10/2010 – 23:45h

MEIHY, José Carlos. Notas sobre a ‘Moderna Tradição Oral’ na MPB: Tropicalização do deserto e o fabulário árabe no imaginário brasileiro. São Paulo. Maio 2008

MONTENEGRO, Antônio Torres. História Oral e memória – a cultura popular revisitada, Editora Contexto, São Paulo, 2007

NUNES, Rosiane da Silva e SCARPINETTI, Antônio José. História oral de vida e tradição oral: manifestações culturais tradicionais de Olímpia – o anônimo se faz público. Anuário, 45º Festival do Folclore, Olímpia – SP, 2009

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: